P A Q U E T A E N S E

ILHA DE PAQUETÁ

Paquetaense - Ilha de Paquetá - Imagem - Bandeira do Brasil

PAQUETAENSE







CAMBACICAS

Crônica de Ney Dantas em dezembro de 2011

Ilha de Paquetá




As primeiras disputas pelo espaço eu venci. Não foram uma nem duas,
mas umas três ou quatro. Perdi a contagem. Não fosse pela leve sujeira que provocavam ...

A casa de Paquetá a que chamo de o ‘encouraçado definitivamente encalhado na
Praia da Imbuca tem uma gostosíssima varanda voltada para esse que identifico como
o ‘meu último passadiço’.







Do teto ao centro da varanda pende um pesado lustre com armação metálica
em forma de pirâmide retangular invertida com faces de vidro trabalhado opaco,
com a base e o vértice abertos; este com um arremate metálico de quatro pernas.
Sua lâmpada dispõe de primitiva fotocélula que a acende e a apaga de acordo
com a luminosidade solar. Uma segurança para nós que nas ausências enganamos estar com a casa habitada.

Segurança para nós, conforto para elas que descobriram um bom abrigo,
aquecido às noites e protegido de ventos e chuvas durante. O quê mais propício para receber um bom ninho?

Imagem de um lustre em uma varanda na Ilha de Paquetá

A princípio a luta foi contra um invasor desconhecido. Certamente um passarinho, uma avezinha. Mas qual?
Como nunca as vira, julguei os ninhos vazios nas sucessivas vezes em que encontrei
o chão sujo de excrementos. Com cuidado retirei a vegetação acumulada no vértice da pirâmide protegido
por hastes de arremate como uma clarabóia.
Não vi sinal do casal, de ovos, de filhotes; apenas a sujeira no chão.

Mas desta vez, em dezembro, foi diferente. De uma noite para outra percebi o ninho crescer
com ramos de vegetação leve ainda verdes.

À esquerda do passadiço, ou melhor, da varanda, existe uma goiabeira que serve de encruzilhada
de encontros para uma quantidade de aves silvestres abundantes em Paquetá: pardais, rolinhas,
bem-te-vis, beija-flores, sanhaços, sabiás, joões-de barro, canários, cambaxirras e sebinhos.

Aproveitando o vazio da casa, sem filhas e netos, e sem barulho, enquanto lia,
passei a observar e a vigiar de perto, o ninho. Mas não foi de perto que os percebi, mas de longe, do portão. 
Em vôo rápido, o casal partiu da goiabeira direto para o lustre. Um observou
o interior pela base invertida. O outro, em atitude acrobática
à entrada de seu ninho  pendurou-se no vértice inferior e entrou.

Imagem de um pássaro em um lustre em uma varanda na Ilha de Paquetá

A principio, sem uma observação perfeita das avezinhas, ocorreu-me serem cambaxirras,
nome comum a várias aves da família dos Trogloditídeos (morador da caverna) Musculus (rato),
avezinha medindo cerca de 10 centímetros, muito ativa, de plumagem marron-escuro,
que só se alimenta de pequenos insetos tais como besouros, cigarrinhas, formigas, lagartas,
vespinhas, aranhinhas e, às vezes, até de filhotes de lagartixa. Captura suas presas
enfiando o bico em frestas e cavidades, tanto em construções humanas quanto sob a casca de plantas.
Faz seu ninho em todo tipo de cavidade, já tendo sido vista fazendo seu ninho
sobre o motor de automóvel abandonado e até dentro da gaveta de uma escrivaninha em um sítio desabitado!

Mas as fotografias que consegui da pequena avezinha e mais tarde em casa,
em meu ‘laboratório’ de pesquisas e de escrevinhações, em consultas a portais disponíveis no Google,
levaram-me a certeza de tratar-se de cambacicas (Coereba flaveola - Linnaeus, 1758),
pequena ave que é apresentada no brasão das Ilhas Virgens Americanas. É conhecida por ser um

Em consultas a portais especializados aprendi que tanto os machos como as fêmeas
que não estão envolvidos na procriação são capazes de construir seus ninhos individuais para pernoite,
em curtos intervalos de tempo, entre duas a quatro horas, com forma aproximadamente
esférica e com uma entrada baixa e larga, utilizando-se de grama, folhas, penas,
teias de aranha, fibras vegetais, incluindo às vezes materiais fabricados
pelo homem, como papéis, plástico e cordões e barbantes.

Imagem de um ninho de pássaros em um lustre em uma varanda na Ilha de Paquetá

Antes do acasalamento o macho corteja a fêmea cantando  em torno de seu próprio ninho
e no da fêmea com que pretende acasalar. Formado o casal, o macho providencia
e dá início à construção do ninho de procriação, mais complexo do que o ninho individual
que se estende por um período de seis a oito dias, mais bem acabado, com paredes mais espessas
e uma entrada bem menor, voltada para baixo, protegida por um longo alpendre
que se aproxima da entrada e a veda completamente.
Este ninho da varanda, como mostra a fotografia, de julgo já ser o do casal,
tem sua entrada voltada para a parede protegida pois do vento direto.

Enquanto a fêmea está ocupada, o macho mantém uma atitude protetora e permanece próximo,
como na cadeira da varanda, na fotografia.  Depois que os ovos são postos
o macho perde seu interesse, passando a viver em seu próprio ninho e cortejando outras fêmeas.
Não acompanhei o casal até perceber esse procedimento. Longe de mim tamanha curiosidade.

Consta que a cambacica constrói um ninho onde põe de um a três ovos de cor branco-creme,
às vezes de tom rosado e com pintas marrons cujas chocagem e posterior
alimentação e proteção da prole são realizados quase exclusivamente pela fêmea.
E diz-se mais, que, em geral, ocorrem várias nidificações em um ano,
transcorrendo um período de cinco meses dedicado à alimentação dos filhotes,
o que pretendo acompanhar ao longo das próximas férias, se os netos permitirem.



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