Paquetá é uma pacata ilha no fundo da baía de Guanabara com cerca de 4.000 habitantes de todas as classes sociais. Nela, todos se conhecem, são parentes, amigos ou conhecidos, pelo menos de “ver passar”. Vive sob a influência da metrópole, a cidade do Rio de Janeiro, distante cerca de 60 minutos em viagem de barca. Desde ali, já se ouve e se sente o clima do carnaval da cidade transferir-se para a ilha. Na metrópole as grandes Escolas lutam pela classificação. Aqui, os Blocos sonham com uma bela exibição no desfile na Furkim Werneck. São apenas dois os principais. O “Silêncio do Amor” é um deles. O “Silêncio do Amor” nasceu na colônia de pescadores da Eliziária, precursora da Imbuca, no extremo sul da Ilha de Paquetá. Foi mais tarde incorporado pelo Clube Tupi em cuja área nasceu a rua Frei Leopoldo. Lá pelos anos 50 do século passado. Fernando Pessoa, falecido em 2007, morador na esquina da Manoel de Macedo com Maria Freitas, e entusiasta do bloco foi o provocador do atual nome desse bloco. Diz-se que em uma disputa pública ocorrida há anos houve um fuzuê entre os participantes quando alguém pediu “Silêncio” logo seguido por um apelo de Fernandinho que aduziu “Que seja um silêncio de amor” e repetido em coro “Silêncio do Amor”. Desaparecido o Tupi, o Bloco ‘Grupo Recreativo Silêncio do Amor’, que tem hoje como Presidente, Adeir Moraes, e como Carnavalesco, Ademir Moraes, os irmãos da padaria ‘Carecas e Frescos’, está estabelecido na sede do clube Barreirinha Futebol e Regatas, fundado em 1949 no Beco da Coruja. O “Silêncio do Amor” aproveita-se de sua quadra para seus ensaios. Há área bastante e suficiente. Na noite de 9 de janeiro de 2010, o Barreirinha abasteceu-se de cervejas e engalanou-se para receber seus associados, convidados, músicos e compositores candidatos à escolha do samba-enredo do Bloco cujo tema era “Sonhei que meu bloco virou Escola” para o carnaval deste ano.  Incentivado, motivado e cheio de esperança fui pela primeira vez ao Barreirinha para prestigiar o samba de Jorge Camburão, Gabu do Cavaco e Neno, encampado por todos nossos amigos e freqüentadores da Barraca do Sereno. Cheguei só e juntei-me à turma da Imbuca – Sereno, Jorge Camburão, Neno, Aldo, Elaine, Arlinda e outros mais. Bebíamos cervejas enquanto aguardávamos, de fato, o início da festa, da competição na quadra aberta. Eram 23h20min quando Geraldo anunciou a composição do júri presidido por um membro da Academia Brasileira de Letras!. Que júri! Eis seus participantes na ordem da lista de apresentação: Julio Marques Neto, programador; Otavio Velho, antropólogo; Luiz Belo, jornalista; Pedro Amorim, músico; Chico Mendes, professor; Tainá, cantor e compositor; Walter Moreno, compositor; Eloy Antonio dos Santos, violonista; Milton da Portela, compositor; Silvio Cunha, figurinista; Marlene de Lima, sambista; Domício Proença, professor, escritor e membro da ABL; e Jorge Roberto, jornalista, radialista e escritor. Todos é claro, paquetaenses. Em seguida, Adeir e Lucinha sortearam a ordem de apresentação dos sambas concorrentes que ficou assim: em primeiro lugar, o samba de Rafael Padula, Serginho, Nina e Luiz Pião; seguindo-se o de Jorge Camburão, Gabu do Cavaco e Neno; e para encerrar o de Flávio e Dinalva. A quadra se anima e se agita com os acertos da Bateria de Tito. O som é testado nas caixas. Movimentam-se Adeir, Ademir e Geraldo, os intérpretes, os compositores, os presentes. Então, um zum zum zum. Houve algo? Ninguém sabe, ninguém... mas ouviu-se! Apresenta-se o primeiro samba entusiasmado com colorida alegoria, bolas em profusão exibidas e agitadas. Ao final, o som de uma das caixas desapareceu. “Deixa, p’rá lá. Vamos assim mesmo.” bradam cheios de coragem Gabu com seu cavaco e Jorge Camburão e Flavinho Machado mostrando a força de suas vozes principalmente quando repetem o refrão do segundo samba “Vou sorrir, vou cantar, vou brincar, vendo o povo aplaudir nessa escola da vida, e por que não sê-lo? Se eu posso, eu sou!!! Meu “Silêncio do Amor”’ E então, Eloy “Sete Cordas” surge junto à mesa da turma da Imbuca “O que houve? E o júri?” perguntam-lhe. “Excluíram-me. Alegaram que s ou amigo dos compositores Jorge Camburão e Neno!”. Sem darem maior importância ao que ocorre Aldo levanta-se e samba com rara leveza, acompanhado de Elaine remexendo seu corpo. Quanta graça e admiração! Ao final, sem muito entender o se passara entre tantos sons, os compositores e intérpretes são cumprimentados “Foi ótimo.” Não demora a entrar o terceiro samba, igualmente bem apresentado. Ao final, a expectativa pelo anúncio do resultado da apuração do júri. Correm boatos, disse-que-disse, suposições e adivinhações. Então, o anúncio: “Ganhou o samba de Flavio e Dinalva”. E parte dos presentes à quadra pula e comemora a vitória. “Eu não disse? E ganhou justamente aquele que não menciona o nome do bloco em sua letra, infringindo uma das regras.” Entre tamanha tristeza, o silêncio da turma da Imbuca foi quebrado com a pergunta de Jorge Camburão: “Onde foi que eu errei?” Há coisa que acontecem e que não precisam ser explicadas. Entende-se com o passar dos dias. |