Papai, que bandeirinha é aquela? Onde meu filho? Ali, naquele janelão azul, no cantinho. Nossa filho! È do time do seu avô! O América! Ele ia gostar de ver. Time de quê, papai? De futebol, filho. Time como o Vasco, Fluminense, Botafogo, Flamengo... como o Madureira, São Cristóvão e o Bonsucesso também. E agora o Resende! Cadê ele, papai, o América? Sei não filho. Acho que acabou. Quando comprei a Imbuca 28 em 1997, o América, com sede em Campos Sales, ainda existia. Foi fundado em 18 de setembro de 1904 e logo serviu de fonte de inspiração para a criação de muitos outros América, no Brasil e no exterior! Em 1911 adquiriu um terreno na Rua Campos Sales na Tijuca e ali estabeleceu sua atual sede, ainda própria. Clube amado por Giulitte Coutinho, Wolney Braune, Dirney e seu filho Henrique, por meu pai, por mim e por mais alguns. Uma torcida que no fim era capaz de encher uma Kombi. Time sete vezes campeão carioca, a última em 1960, e oito vezes vice-campeão e a que mais me impressionou e marcou foi em 1950 com um timaço formado por Osni, Joel e Osmar, Rubens, Oswaldinho e Godrofredo, Natalino, Maneco, Dimas, Ranulfo e Jorginho! Time que não foi campeão, mas uma equipe que se perpetuou em minha memória e de outros americanos. Inesquecível. Serviu de exemplo e de incentivo a outro time melhor que foi campeão carioca em 1960 ... e vencendo o Fluminense! Eu era então, Segundo-Tenente da Marinha! Em 1982, foi o campeão dos Campeões de um torneio organizado pela CBF para servir de ensaio para a Copa Brasil. Foi o auge! Além dessa e de outras lembranças do time rubro, dos ‘diabos’, eu guardava uma pequena bandeira do clube de 30 por 40 centímetros. Pequeninha, mas vistosa. O janelão azul da casa de frente para a Imbuquinha, caminho de acesso a já conhecida ‘barraca do Sereno’ mostrou-se-me como o lugar adequado e resguardado para homenagear meu clube de coração. Uma paixão, uma lembrança, uma memória! Mas então, o América já estava decadente! Caíra no campeonato carioca para divisões inferiores e fora eliminado do Brasileirão. E nunca mais. Deixou de aparecer em manchetes dos jornais em primeiras páginas ou interiores, em noticiários, e enfim em qualquer linha de jornal, mesmo os menos populares. E aquela bandeirinha a chamava a atenção dos transeuntes, não só locais, como de turistas e farofeiros em transito pela Ilha de Paquetá. Transformou-se em um marco na Imbuca e quiçá, na Ilha. “Aquela casa do americano”, “A casa com a bandeirinha do América”, “A do Comandante que é América” e outras referencias menos elogiáveis. O sol constante da manhã desbotou o vermelho da bandeira e a maresia atacou a pintura do “encouraçado definitivamente encalhado na Praia da Imbuca” exigindo um trato que veio em 2007, de setembro a dezembro. Desarrumação total, retirada de quadros, adornos e penduricalhos, cortinas e ... foi-se a bandeirinha. Como que desiludido o América caiu mais e mais. Seu Ney! E o nosso time? Azar, Adauto! Azar. E 2008 passou em silêncio, rapidinho, rapidinho como que prenunciando uma crise entre indagações de alguns poucos paquetaenses admiradores do América como Izaurino, ex-gerente do BANERJ em Paquetá; Adauto, entregador de bebidas da Cristina; Luiz Carlos, o sorveteiro de Nova Iguaçu sempre presente nos fins de semana na Ilha, a alegria de minhas filhas, então meninas e hoje, de meus netos! Naquela manhã de 20 de janeiro de 2009, dia de São Sebastião do Rio de Janeiro, dia da posse de Barack Obama, o primeiro Presidente negro dos Estados Unidos da América, lembrei-me de revirar meus guardados e encontrei no fundo de meu armário, a bandeirinha do América. Recoloquei-a em seu devido lugar como um lembrete aos americanos “Estamos vivos! Sangue! Sangue!” Também em Paquetá o América serviu de inspiração quando da fundação de dois clubes ilhéus. O Municipal Futebol Clube da Ilha de Paquetá foi fundado no dia 13 de junho de 1918 por Rodolpho Alves, Alfredo Ribeiro dos Santos, Job da Silva Rosa, José Ferreira e João Fernandes Hermidu, dentre eles alguns admiradores do América que exigiram se adotasse para o Municipal as mesmas cores e um emblema à semelhança do do América. para esse clube ilhéu que existe até hoje. O outro foi o Paquetá Iate Clube que nasceu em 16 de agosto de 1956 com um grupo dissidente do clube Municipal do qual faziam parte Wolney Rocha Braune, Moacyr dos Santos Machado – o Moacyr Mangonga, Rivadavia dos Santos Machado – o Riva e Miguel Fernando Fogliati – marido de D Alaíde, que ao fundarem o PIC, este de caráter náutico, fizeram a mesma exigência, a cor vermelha do América. O ano de 2009 foi glorioso para o futebol carioca. O Flamengo surpreendeu e se tornou um hexa-campeão do Campeonato Brasileiro. O Vasco da Gama ressuscita ao ser campeão da “Segundona” e retorna ao primeiro grupo de elite. Fluminense e Botafogo, vilões heróis, contrariando opiniões de futurólogos e previsões de estatísticos e matemáticos escapam como que por milagre de um desonroso rebaixamento. E o América? Já quase esquecido, o segundo clube no coração da maioria dos cariocas, o Mequinha dos apaixonados ‘rubros’, retorna à Primeira Divisão do campeonato carioca! Resta rememorar o mais belo de todos os hinos compostos por Lamartine Babo: Hei de torcer, torcer, torcer Hei de torcer até morrer, morrer, morrer A começar por mim A cor do pavilhão É a cor do nosso coração.
Autor do texto: Ney Dantas | |